Os junkies e os dealers

Eu percebo a auto-alienação dos contadores de cadáveres, para os quais a épica batalha dos seus números (saber se foram 80 ou 30 os cadáveres do dia) é quiçá mais importante que a guerra das armas.
Eu percebo (e até subscrevo, como vítima) a indignação pelo extremar dos extremos que resulta da discussão pública imediata (i.e., sem mediação…) sobre os “acontecimentos” do dia a dia da guerra “entre Israel e o Hezbollah” (como se estivéssemos perante dois galos numa capoeira, cada um representando um emblema, até posso ouvir o relato, neste canto com a camisola do Bem o galo semita, no outro canto representando o Mal o galo anti-semita e não houvesse mais nada fora da arena de onde escorre o sangue dos dois galos).
Eu percebo a perturbação espiritual de algumas almas inquietas que justamente reconhecem autoridade ao tempo e à memória retirando-a aos poderes transitórios, incluindo o Quarto e sua blogosférica descendência.
Mas deixem-me que vos diga. O tamanho do conflito só pode ser percebido na sua totalidade (“grocado”, diria o Smith de Heinlein) à luz de uma realidade bem mais premente e comezinha que esse épico do “choque de civilizações” e outros blockbusters tão bem intencionados quanto inócuos. Essa realidade chama-se a dependência dos Estados Unidos da América, em cujas veias se injectam diariamente milhões de barris de petróleo.
Em termos simples: o principal junkie da droga que impulsionou a Alucinação Colectiva Da Prosperidade Mundial ao longo do século XX começa a dar sinais de perturbação perante o fim do fornecimento e, como bom agarrado que é, não quer nem ouvir falar em programas de metadona. É um desesperado.
Do outro lado o dealer está em piores lençois: fartou-se de encher os dedos de anéis de ouro e espatifou bem mais que a conta em meretrizes monegascas e champanhe francês, não cuidando de retocar a tempo as linhas de fornecimento, e agora veio o implacável anúncio do fim próximo do abastecimento divino. Sente que espatifou a oportunidade única de reerguer o islão que Alá lhe deu no momento em que o sentou em cima do barril imenso. É um desesperado.
Estes dois desesperos são colossais, mesmo à escala planetária, e conduzem o mundo para o Choque da Realidade como um rebanho a caminho do matadouro.
Não conto mísseis nem corpos. Não ergo o braço deste ou do outro em sinal de vitória (comecei o conflito a pensar que eram favas contadas para Israel, era uma questão de tempo, e hoje começo a pensar que o Hezbollah tem o jogo no papo, por isso mesmo nunca se sabe, o tom ligeiro está dentro da moda da estação). Não penduro uma bandeira na minha janela. Caro leitor: este conflito prenuncia o futuro e o futuro é de escaramuças entre os junkies e os dealers da droga económica do século XX. Comece pelo notável trabalho do Chicago Tribune. Os gráficos são muito bons — mas não se prenda, faça favor, leia o resto. Pense um bocado. Verá que depressa lhe passará a indisposição provocada pela cobertura imediata da batalha no Médio Oriente.

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