À falta de incêndios, queime-se o que estiver mais à mão

Anos a fio, a opinião pública criticou a RTP, as televisões e os jornais de uma forma geral por darem excessivo destaque ao triste espectáculo das chamas. Que serviam, segundo os mais zelosos auto-intitulados defensores da moral e bons costumes, para desviar “o povo” das coisas essenciais, como a política. Este ano a RTP, as televisões e os jornais deram menos espaço às chamas. Resultado: a “opinião” “pública”, sobretudo a que se auto-intitula de guardiã e cão de fila, crucificou a RTP (até ver) por, alegadamente, ter cedido à “pressão”, imagine-se, do Governo para dar menos espaço às chamas — precisamente o que essa mesma “opinião” “pública” tinha exigido numa berraria inaudita há um e dois Verões atrás.

Feito porta-bandeira deste MST, Movimento dos Sem-Tema, Eduardo Cintra Torres falava apenas e só de um tema muito, muito antigo, tão antigo como a própria RTP, não havia era ninguém que a PIDE/DGS deixasse escrever sobre isso: a  instrumentalização (o termo não é meu) da televisão do Estado. As acusações de ECT não são novas. Pelo contrário, são repetidas numa base mais ou menos frequente, a propósito de tudo e de nada, seja qual for o partido ou coligação no Governo e sejam quais forem a Administração e a Direcção de Programas da RTP (algumas já soçobraram, vítimas destes julgamentos sem provas quando é preciso, erm, queimar alguém para que tudo continue igual).

Tudo bem: é um tema com continuidade.

O que realmente enjoa, ao ponto do descrédito, são os sistemáticos abusos destes sem-tema, logo secundados pelo papagaios de repetição que pululam, ávidos de um link, naquilo que foi em tempos um eco-sistema habitável e pujante: a blogosfera. A chuva impede que mandemos incendiar as matas? No problem: a matilha manda queimar a RTP. Como no caso recente da guerra, convém desde cedo extremar as posições para as margens do conflito (ou és a favor ou és contra, não tens hipótese de fazer sequer perguntas), erodindo rapidamente o espaço para a discussão sadia ao centro.

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